Após vários meses de pandemia, Letícia resolveu se arriscar novamente a sair de casa para recomeçar a sua rotina de exercícios matinais ao ar livre. Por mais que ainda mantivesse a rotina de exercícios em casa, precisava tomar um pouco de ar puro para recarregar suas energias. A fim de minimizar os riscos de contaminação, resolveu ir para um bairro próximo onde não havia tanta aglomeração de pessoas.
O bairro escolhido possuía muitas árvores e pouquíssimos prédios. Era necessário passar pelo bairro para chegar ao parque que costumava correr antes da pandemia. Todas as casas eram grandes e possuíam arquiteturas bastante peculiares, indicando que era um bairro de alto padrão. Por conta disso, também supôs que o lugar era razoavelmente seguro.
Ao longo do período de isolamento, vários hobbies temporários foram sendo desenvolvidos, como criar plantas, ouvir podcasts e comprar um tapete de ioga. Em algum momento, Letícia criara uma máscara personalizada com um desenho extremamente colorido e psicodélico. Nem ela sabia ao certo o que ele representava, mas a simples sensação de fazer algo criativo já era extremamente gratificante. Lembrava a época em que conseguia expressar seu lado artístico livremente sem que estivesse esgotada por conta da rotina diária.
Antes de sair, pegou sua máscara psicodélica, o álcool em gel e as chaves da casa. O celular não era necessário, pois o bairro possuía ruas bastante regulares, o que fazia com que fosse quase impossível se perder. Após descer pelas escadas e cumprimentar o porteiro da manhã, seguiu para a direita no caminho de costume que utilizava para ir ao parque.
Letícia não se lembrava da dimensão das casas do bairro. As casas e as ruas eram tão regulares que pareciam ter saído de um filme estadunidense. Ao passar por algumas das inúmeras ruas regulares, lembrou-se de que naquela rua havia uma casa extremamente velha na qual um homem ficava alimentando pombos. Talvez não fosse algo notável em qualquer outro lugar, mas naquele bairro era.
Em frente à casa, não haviam pombos como das outras vezes que passara por ali. E nem o homem. Mas havia algo errado. Era possível sentir um cheiro extremamente forte de algo em decomposição. O portão da casa estava aberto, e Letícia decidiu investigar. O cheiro foi ficando mais forte à medida que se aproximava do portão. Dentro do quintal, jazia um corpo putrefato que provavelmente já estava ali há dias. Uma ânsia de vômito subiu à garganta e teve de ser contida. Provavelmente, era o homem que alimentava os pombos. A primeira reação foi de ligar para a polícia, corpo de bombeiros ou qualquer entidade que pudesse remover o corpo dali. Entretanto lembrou que estava sem celular. Todas as casas em volta eram protegidas por portões imensos e muros maiores ainda. Provavelmente, não daria para pedir ajuda aos vizinhos também. A única solução seria voltar para casa para poder fazer a ligação.
Voltou-se para o portão e percebeu que ele estava fechado. Não só fechado, mas trancado. O primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi que ele tinha batido por causa do vento. Tentou mais algumas vezes sem sucesso. Começou a bater no portão torcendo para que algum pedestre passasse por ali e ouvisse o seu pedido de ajuda. Antes que isso acontecesse, percebeu que havia algo puxando sua meia. Sacudiu a perna e percebeu que era um pombo. E não havia somente um, mas sim dezenas deles, talvez até centenas. Um dos pombos voou do muro e começou a puxar o seu cabelo, sendo repreendido imediatamente. Outro apareceu e cutucou sua perna, causando um leve sangramento. Depois disso, todos os pombos voaram em sua direção e começaram a atacá-la vorazmente por todo o seu corpo. Letícia tentou espantá-los, mas a quantidade tornava impossível qualquer tentativa de defesa. Ela começou a bater no portão com ainda mais força e a gritar desesperadamente por ajuda. Os pombos a derrubaram no chão, e seus gritos desesperados ecoaram por todo o bairro, mas ninguém veio ajudar. Quando os pombos terminaram de mutilar o corpo, o portão se abriu.
Manoel olhou para o relógio. Estava adiantado para o primeiro dia de trabalho. Não poderia dar mole e perder a oportunidade que seu amigo lhe oferecera. Em seu walkman, tocava “Lonely”, do artista Akon, uma de suas músicas preferidas. Olhando atentamente para a janela, percebeu que acabara de passar pelo ponto de referência que seu amigo havia lhe passado. Puxou a corda do ônibus e desceu no ponto seguinte.
O caminho era simples: seguir reto, virar à direita após o “casarão abandonado” e seguir até o final do quarteirão. Seu amigo não fora muito claro ao dar características do tal “casarão abandonado”, mas garantiu que seria fácil reconhecê-lo. Seguindo pela rua deserta, era fácil notar que aquele seria um bairro de gente rica. Várias construções de casas que com certeza não eram pra qualquer um. O padrão foi quebrado ao perceber um casarão muito velho e mal cuidado. Provavelmente, esse era o tal “casarão abandonado”. Estranhamente, uma mulher jogava comida aos pombos logo em frente, indicando que talvez o casarão não estivesse tão abandonado assim. A mulher usava uma máscara extremamente colorida e que chamava bastante a atenção. Talvez fosse alguma nova moda punk. Manoel olhou novamente para o relógio e percebeu que estava quase na hora. Decidiu então apertar o passo e esquecer a cena peculiar que havia presenciado.

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