Aleastórias

Bombas no céu

— Opa, hora da novela! – disse José para si mesmo enquanto olhava o relógio.

Desligou o fogo que fervia a panela de feijão que havia cozinhado no dia anterior e pegou o último prato limpo que havia no escorredor. Montou seu jantar navegando de panela em panela. Para hoje tinha o tradicional arroz com feijão e carne seca frita. Pegou uma colher e antes de ir para a sala passou pelo armário e completou seu prato com uma generosa dose de farinha. Então jogou-se no sofá recém re-encapado para assistir sua tão aguardada novela.

A grande televisão de tubo ficava à esquerda de uma grande janela de grades verdes e que era a única que existia na casa. Hoje a janela estava aberta, por conta do calor infernal que fazia. Apesar de ter plena ciência que mosquitos que invadiriam a casa, essa ainda era a melhor opção comparada a cozinhar lentamente na casa apertada de teto baixo. Para fora e para baixo da janela havia uma imensidão de outras casas com características. Mais ao longe via-se vários prédios luxuosos, alguns com espelhos que se tornavam refletores gigantes que acompanhavam o movimento do sol.

Após o último “Boa Noite” dos apresentadores do jornal da noite, os créditos começaram a subir. José encheu mais uma colher e a levava até a boca. Antes que isso foi possível, um grande estouro o fez derrubar parte da comida em cima do sofá.

— Bando de filho da puta do caralho! – exclamou baixo, pois não queria arrumar problemas com ninguém – Vou ter que limpar essa porra agora!

José estava acostumado a esse tipo de manifestação por parte de seus vizinhos, mas de vez em quando ainda tomava alguns sustos em momentos inoportunos. Levantou-se do sofá e colocou o prato em cima da televisão. Na cozinha, pegou um pano molhado para garantir que nenhuma mancha ficaria no sofá. Catou alguns grãos que conseguiu e o resto jogou no chão para limpar depois. Esfregou o pano molhado durante algum tempo para garantir que o novo encapamento não seria estragado na primeira semana. Durante este tempo, outra bomba explodiu.

Na cozinha, abriu a lixeira e jogou o resto de comida que havia derrubado. No curto trajeto entre a cozinha e a sala, ouviu mais duas explosões.

— O povo tá animado hoje!

Pelo que sabia, não havia nenhum evento que justificasse tal animação de seus vizinhos. José passou pela janela em direção ao sofá, mas logo se deteve quando notou algo estranho no céu. A noite estava muito nublada, apesar do calor absurdo. Mas havia alguns “buracos” nas nuvens. Desses buracos emanava uma luz verde, como se houvesse uma lanterna ligada em cada um. Mais uma explosão ocorreu e José notou que um novo buraco se abriu juntamente com a explosão.

A sequência seguinte de seis ou sete explosões soou como fogos de artifícios. Logo após a sequência, José notou que a novela fora substituída pela música do plantão de emergência da emissora. José deixou a janela e foi ao sofá para acompanhar o plantão. O apresentador começou a falar sobre os buracos no céu. Parece que eles estavam acontecendo em vários lugares ao redor do mundo. Ninguém sabia o que estava ocorrendo, mas as autoridades supunham que…

A televisão desligou. Na verdade, começou a chiar, como se o canal tivesse saído do ar. José levantou-se, desligou a televisão e voltou para a janela. Do lado de fora, as luzes da cidade foram se apagando, prédio a prédio, casa a casa até deixar José completamente no escuro. No céu, havia centenas, talvez milhares de buracos nas nuvens.

Pela primeira vez em algum tempo o medo tomou conta. Já estava acostumado com tiros, assaltos e outros tipos de atos violentas praticados pelo homem. Mas aquilo era diferente. Um calafrio passou pela sua espinha. Ele fez o sinal da cruz para poder se acalmar. Seja lá o que fosse, sua padroeira iria te proteger.

Voltando a prestar atenção à janela, subitamente um dos buracos pulsou com uma luz verde bem mais forte e se apagou. Isso aconteceu com todos, um a um. O perigo parecia ter acabado. José deu um suspiro aliviado.

Mas não durou muito. Um grito masculino horrendo vindo de algum lugar mais abaixo na comunidade fez seu coração acelerar novamente.

— Que porra foi essa!? – exclamou para si mesmo.

Outro grito, dessa vez feminino. Nisso, uma sinfonia macabra começou a ecoar de todas as direções, que fez José trancar a janela e se recolher ao canto que julgava ser o mais seguro de sua casa pois ficava mais próximo a um barranco e o tornava difícil de ser atingido por uma bala perdida.

— Minha Nossa Sinhora! – exclamava enquanto ouvia os gritos macabros.

Começou a fazer o sinal da cruz tão rápido que começou a errar as ordens. José estava torcendo para que aquilo o ajudasse de algum modo. Só parou quando alguém bateu na porta.

— Me deixa entrar! Me deixa entrar! – dizia uma voz rouca que parecia ser de uma mulher.

A mulher batia tão forte na porta de ferro que parecia que ela poderia derrubar a casa inteira a qualquer momento. José não abriu a porta. Estava tão paralisado que não conseguia fazer nada mais que ouvir os pedidos de socorro desesperados da mulher.

Então houve o silêncio. José não sabia se ficava aliviado ou não. O que teria acontecido àquela mulher? Antes que tivesse tempo para espiar por baixo da porta, um grito horrendo tomou conta do ambiente, arrepiando todos os pelos de seu corpo.

Ainda aterrorizado mas tomado pela curiosidade, José resolveu espiar por baixo da porta novamente. Mas não precisou fazer muito esforço, pois o que estava na porta era extremamente visível.

— Meu Deus Du Céu. – sussurrou e voltou rapidamente à posição em que estava.

Na porta, havia uma figura completamente negra, que parecia a sombra de uma pessoa bem vestida. Era como se a figura usasse algum tipo de terno e chapéu. Seus olhos eram de um vermelho vívido que José nunca havia visto na vida. Ela olhava de um lado para o outro, como se procurasse algo.

Agora ela se movia pela casa. José não conseguia vê-la mais, mas conseguia saber disso por causa do ar gélido que a acompanhava. Nenhum barulho de passo podia ser ouvido. A figura perambulava pela sala. Foi até o quarto. Passou pelo banheiro e agora ia para a cozinha.

A criatura entrou na cozinha. Um ar glacial invadiu todo o cômodo. Estava tão frio que parecia que até o tempo havia sido congelado. A figura perambulou pelo cômodo por algum tempo, olhando de um lado para o outro. Para a sorte de José, a criatura foi até a porta de saída e deixou a casa atravessando a porta como se ela não existisse.

Um novo respiro de alívio acalmou José um pouco. Fechou os olhos por um tempo e sentiu sua pressão voltar ao normal. Ao abrir os olhos, percebeu que havia uma criança à sua frente. Uma menina de cabelos loiros e uns cinco anos de estava parada à sua frente o observando. Pensou que ela poderia ter se perdido dos seus pais, mas não teria como ela ter entrado ali pois todas as portas estavam fechadas.

José pensou em falar com ela, perguntar como ela havia chegado ali. Mas quando prestou mais atenção, viu que não era uma criança. A boca e os olhos estavam em proporções erradas. O nariz simplesmente nem existia. Um calafrio subiu novamente espinha. A criança veio andando na direção de José e ele soube que a única coisa que poderia fazer era se juntar à sinfonia macabra.

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