khaler

Miau!

Khaler chegava ao seu prédio depois de uma longa corrida relaxante. Decidiu começar a praticar exercícios após ter tido um sonho estranho onde pulava alegremente em uma grande cama elástica roxa ondunada.

Dessa vez optou por seguir o caminho que seu ônibus fazia normalmente, só para ver as pessoas da terceira idade se exercitando. Khaler se inspirava em vê-las fazendo atividades físicas com aquela idade. “Se eles conseguem, eu também consigo!”, pensava confiante. Descobrira esse grupo há pouco tempo, enquanto estava no ônibus e observava uma joaninha na janela.

Khaler chegou ao que deveria ter sido a recepção do seu prédio há algumas décadas. Hoje era somente um espaço vazio com algumas tralhas espalhadas. Olhou para o velho elevador que cheirava a rangidos e rangia ferrugem com uma expressão de nojo e decidiu subir pelas escadas. “Elevador é para os fracos”, pensou.

Chegando ao seu apertamento, acendeu as luzes e viu sua gata na cozinha deitada ao lado do pote de comida, que estava completamente vazio. “Desculpaaaa, esqueci de você!”, disse Khaler sentindo-se culpada e esperando que a gata fosse entender alguma de suas palavras. Revirou os armários em busca de comida enquanto a gata preta a observava pedintemente com seus grandes olhos verdes.

Com muito custo, Khaler achou a comida no fundo de um dos armários. Andou até o pote de comida olhando para a gata e balançando a comida, como se estivesse torturando a pobre coitada da gata. Agachou ao chegar no pote e colocou comida suficiente para uma refeição. Não podia desperdiçar comida. Observou a gata deleitando-se e a acariciou fortemente, quase impedindo a refeição da felina.

Vendo que a felina estava saciando sua fome, Khaler levantou-se e pensou “Missão cumprida”, soltando um suspiro. “Agora posso tomar banho e ir descansar”, falou consigo mesma.

Khaler guardou a comida no mesmo lugar onde a encontrou e foi tomar banho. Depois se preparou para ir dormir, mas antes foi verificar como estava a gata. O pote estava vazio e a gata havia sumido! “Que interesseira!”, falou consigo mesma com uma expressão de reprovação. Apagou todas as luzes e deitou-se na cama.

Como de costume, Khaler repensou todo o seu dia, suas ações, suas consequências, suas ações que gerariam consequências, as coisas boas que aconteceram, as coisas ruins, as estranhas… e parou quando percebeu algo curioso. Abriu os olhou rapidamente. “Eu não tenho nenhuma… gata…!!!”, refletiu espantada. Então levantou-se rapidamente e acendeu a luz do quarto e depois a da cozinha. Procurou o local onde deixou o pote de comida, mas no local não havia nada. Também procurou no armário onde deixara a ração, mas também não havia nada.

“Acho que estou ficando doida”, pensou assustada. Khaler ficou em choque e recostou-se da pia da cozinha por algum tempo. “Primeiro a escova de cabelo e agora isso?”, refletiu passando a mão no rosto incredulamente.

“O que está acontecendo comigo!?”, perguntou silenciosamente em voz alta à sua própria mente, enquanto colocava as duas mãos na cabeça. Não achando nenhuma explicação lógica para o acontecido, decidiu ir dormir. Não era a primeira vez que um evento estranho acontecia em sua vida, e provavelmente não seria a última.

Voltou para a cama olhando para todos os lados como se estivesse sendo vigiada pelo Serviço Secreto da Polícia Corporativa. Deitou-se e decidiu pular a parte de repensar todo o seu dia e tentar dormir de uma vez. A tarefa seria um pouco mais difícil que o habitual pois a luz do quarto permanecia acesa. Mas Khaler estava com medo e decidiu que seria melhor assim.

Piscou os olhos uma vez. “Como!?”, questionou.

Piscou outra vez. “Não faz sentido!”, afirmou decididamente.

Piscou novamente. “Dane-se, eu tenho que ir dormir”, pensou enquanto fechava os olhos.

Permaneceu na escuridão por algum tempo até que ela foi quebrada por dois pequenos pontos verdes brilhantes. Os pontos foram chegando mais perto e Khaler percebeu que não eram pontos, mas sim olhos de gato. Tentou abrir os olhos sem sucesso. Também não conseguiu se mover. Seu corpo inteiro gelou. Sua respiração ficou ofegante. “De novo não!”, exclamou, antes de perder a consciência.

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