O nada.
O vazio.
A escuridão.
Existem várias palavras para definir a mesma coisa. Isso era tudo que Khaler conseguia ver. Uma imensidão de nada.
Seus sentidos ainda estavam acordando e pouco a pouco começavam a se manifestar. O ar entrando por seus pulmões era o mais puro que já havia provado, sem todas aquelas impurezas de combustíveis que se misturavam à atmosfera da cidade. O som da brisa do vento parecia uma melodia tocada pela orquestra da mãe natureza. Sua boca estava seca, então tratou rapidamente de umedecê-la passando a língua sobre seus lábios. Os músculos de seu corpo começaram a mandar mensagens para seu cérebro dizendo “Ei, estou aqui!”. Sua visão ainda não se manifestara, então decidiu finalmente abrir os olhos. Lentamente abriu seus olhos que vislumbraram um lindo e límpido céu roxo, e então fechou-os novamente.
“Um belo dia”, pensou Khaler e deu um sorriso. “Há quanto tempo eu não acordo e me deparo com um lindo céu…”. Notando que havia algo estranho, Khaler tirou o sorriso do rosto e se levantou instantaneamente, como se tivesse descoberto que sua casa estava pegando fogo.
Finalmente de pé, Khaler deparou-se com a cena mais bizarra e impressionante de sua vida. O céu realmente estava roxo. Talvez fosse por causa de algum experimento bizarro de cientistas formados em uma universidade de loucos qualquer. Ou então um vazamento de gases tóxicos de pirofluoeratoluminescente de pliriolatilaneuroactecitrica ou algum outro composto tóxico com um nome estranho. Também haveria a possibilidade de ser o Dia do Fim do Mundo! Isso seria horrível! “Não posso morrer antes de terminar a faculdade!”, pensou. “Todos esses anos de cálculos não podem ser à toa!”, acrescentou. Mas nada disso fazia muito sentido. Então fechou os olhos e sentou no chão. “Com certeza há uma explicação plausível para isso” pensou Khaler e começou a respirar fundo e contar até dez.
1…
2…
3…
4…
“Ok, já chega”, pensou. Khaler nunca teve muita paciência para este tipo de coisa. Abriu os olhos rapidamente e decidiu encarar a realidade de que aquele era o Dia do Juízo Final e que nada poderia fazer para impedir este evento.
Conformada com o destino cruel que a esperava, decidiu voltar seus olhos para chão. Percebeu que não era só o céu que estava roxo; toda a paisagem também estava. Talvez não fôsse o Dia do Fim do Mundo. Mas ainda haviam outras alternativas. Cogitou então a alternativa do gás tóxico com um nome estranho. Mas o ar parecia mais puro do que nunca. Se realmente tivesse sido lançado algum gás tóxico com um nome estranho na atmosfera, provavelmente ele não funcionou como deveria. A menos que ele fosse asfixiante e inodoro, mas com certeza alguém notaria algo estranho e roxo no ar.
Khaler notou que provavelmente não conseguiria achar uma explicação para a situação e decidiu tentar relaxar.
Passada a crise de tentar-achar-uma-explicação-para-a-situação, Khaler começou a (tentar) raciocinar de modo racional. Em vez de passar horas ou dias formulando teorias conspiratórias para explicar a situação, ela começou aceitá-la sem tentar achar uma explicação (ir)rracional. Seja lá o que estivesse acontecendo, ela iria descobrir.
Então finalmente ela parou e observou melhor a paisagem. Tudo o que conseguia ver era uma imensidão de dunas roxas que iam até o horizonte. Dunas que tinham curvaturas suaves, nem muito agudas nem muito planas, nem muito altas nem muito baixas. Dunas perfeitas, a não ser pela cor roxa extremamente fora de moda. Olhou para trás e a visão que teve foi a mesma. Dunas, dunas e mais dunas.
Seja lá onde estivesse, deveria ser algum tipo de deserto, pensou.
Talvez um deserto de algum planeta de uma civilização alienígena, que era mais uma hipótese extremamente lógica, racional e plausível.
Khaler possuía uma mente muito científica, o que tornava difícil aceitar uma situação para a qual não houvesse uma explicação lógica. Então, por algum tempo, permaneceu tentando se recuperar do colapso cerebral que tivera enquanto tentava achar uma explicação para a situação. Com isso percebeu que seria difícil achar uma explicação se simplesmente ficasse parada com cara de paisagem observando a paisagem. Era necessário buscar respostas! E para isso era preciso uma coisa: explorar! Khaler então incorporou o espírito de Indiana Jones, colocou seu chapéu de aventureira e saiu em Em Busca da Explicação Perdida, que inclusive poderia dar um bom nome de filme.
Seguiu para direita, onde havia avistado uma duna ligeiramente maior que as outras à sua volta, para que pudesse ter uma visão mais ampla do ‘seja lá o que for’.
Apesar de esta duna ser mais alta, ela não era tão íngreme, o que, de acordo com princípios da geometria, aumentava a distância entre a base e o topo, fazendo com que Khaler tivesse que andar bastante. Mas isso era bom, tanto para manter a forma tanto para aprender um pouco mais sobre o ‘seja lá o que for’ onde ela estava. Notou, por exemplo, que o solo não era arenoso, portanto não poderia ser areia roxa ou qualquer outra coisa do tipo. Também notou que ele refletia luz como um espelho. Percebeu também que a temperatura do ambiente era ligeiramente mais baixa que uma temperatura considerada como ‘amena’, mas nada que pudesse causar um resfriado ou uma morte por hipotermia. “Quantas descobertas!”, pensou.
Khaler começou a se cansar enquanto subia a duna. Ela parecia ter milhares de quilômetros de extensão da base até o topo. Ou será que Khaler estava fora de forma? Há quanto tempo havia andado assim? Apesar de ter um metabolismo rápido, não estava muito acostumada a realizar atividades físicas. Com todos os adventos tecnológicos, as pessoas não precisavam mais andar muito nos centros urbanos. Tudo isso gerou uma geração de obesos sedentários cujo único exercício diário que fazem é na hora de eliminar as impurezas do corpo.
Depois de anos(minutos) perdidos, noites sem sono e trilhões(ou frações) de quilômetros andados, Khaler chegou ao topo da duna e teve uma grande surpresa. Estendendo-se por todo o horizonte haviam várias… dunas. Dunas, dunas e mais dunas. Será que era só isso que havia nesse ‘seja lá o que for’? Khaler ficou decepcionada. Sua grande aventura estava fracassada. Fora soterrada por centenas de milhares de dunas de ‘material estranho que parece vidro’.
Khaler sentou-se no chão com as pernas esticadas para contemplar a paisagem que estava à sua volta. Olhou para suas pernas e percebeu que estava bem vestida, o que era bastante curioso, já que a última coisa que se lembrava era de estar no seu quarto e de ouvir seu celular despertando repetidas vezes. Estava vestindo uma saia preta que ia até um pouco acima do joelho, que combinava com sua meia-calça preta que também ia até um pouco acima do joelho. Combinava também com seu tênis preto assim como com sua blusa preta com mangas longas. Aparentemente Khaler gostava de preto, exceto por seu cabelo, que estava verde. Aparentemente estava tudo dentro da normalidade, pelo menos com seu corpo. Sentiu-se aliviada por não estar vestindo um pijama ou alguma roupa fora de moda. “Imagina se alguém me ver assim!”, pensou Khaler assustada. Esse pensamento era bastante curioso, dado o fato de que aparentemente não havia ninguém naquele ambiente além de Khaler. Talvez alguns alienígenas, mas que provavelmente não se importariam com padrões moda.
Khaler olhou novamente para o céu e lembrou-se de que roxo não era sua cor preferida. Ainda mais naquele momento.
Voltou seu olhar novamente para frente e percebeu uma coisa que não havia visto antes. Muito ao longe, quase no limite de onde a visão podia alcançar, havia algo. Um minúsculo pontinho laranja e brilhante no meio do horizonte. Khaler comprimiu os olhos para tentar enxergar melhor, o que obviamente não funcionava. “Não deve ser nada”, pensou, e reocupou sua mente com qualquer outra coisa.
Khaler com certeza tentou pensar em alguma outra coisa, mas não era possível. O ponto laranja a intrigava. Tudo no ‘seja lá o que for’ era roxo, então por que aquele ponto era laranja? “Deve ser a nave dos alienígenas!”, pensou logicamente. E decidiu ir em busca do Ponto Laranja. Mas um detalhe a desanimou. O Ponto Laranja estava perdido no meio do horizonte, quase no limite de onde a vista alcança, isto é, ele deveria estar a bilhões de anos-luzes de khalerquilômetros de distância de onde ela estava (1 metro = 6,02×1023 khalerquilômetros).
‘6,02×1023’ era um dos números preferidos de Khaler. Conheceu esse número durante a aulas de química clássica na faculdade. Era um número tão grande e que fora calculado, na época, com tão poucos recursos tecnológicos. Isso inspirava Khaler a querer continuar estudando para se tornar uma Grande Cientista.
A viagem até o Ponto Laranja levaria milhões de anos (de acordo com o Sistema de Medidas Khaler). Diante desse fato, uma questão surgiu na cabeça de Khaler: o tempo nesse ‘seja lá o que for’ passava de forma igual ao tempo no mundo ‘real’? Talvez essa fosse uma questão bastante complexa de ser respondida, então tentou achar a resposta para uma pergunta mais simples: estava de dia ou de noite? Esta era uma pergunta simples mas de difícil resposta. A luminosidade do ambiente indicava que era noite. Mas levando em conta que não havia lua, estrelas ou qualquer outro astro luminoso no céu, o ambiente deveria estar completamente escuro, mas não estava. A luminosidade não era tão intensa, mas também não parecia ser dia. Com certeza aquele era um lugar estranho.
Khaler refletiu um pouco. Aquela viagem poderia ser completamente perdida. Mas levando em conta que poderia passar horas, dias, anos ou até séculos naquele lugar, provavelmente haveria bastante tempo para explorá-lo por completo, “Se é que há algo a se explorar”, pensou hesitante, mas, “Não tenho nada a perder”, pensou confiante.
Agora obstinada por conseguir alcançar seu objetivo, Khaler se levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima. Colocou novamente seu chapéu de Indiana Jones novamente e seguiu em direção ao Ponto Laranja.