Khaler Andou.
Andou.
Andou ainda mais.
“Por que as coisas sempre são tão difíceis?”, pensou indignada. Por que teria sido deixada no meio do nada quando havia um Ponto Laranja extremamente hiperultratrilegal – que provavelmente não seria nada – no meio daquele universo de mais-nada-ainda? Será que não era para ela estar seguindo para o Ponto Laranja? Será que havia algo naquele lugar que não deveria ver? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Elas surgem sempre que há algo desconhecido em nossa frente. E não tendo nada melhor para fazer, Khaler tinha tempo de sobra para formulá-las e surtar tentando respondê-las.
Caminhando ainda mais e mais, Khaler notou que ainda estava muito longe de seu objetivo. O Ponto Laranja estava muito, muito, muito distante. Ela nunca chegaria lá. Era impossível. Era como tentar dar a volta ao mundo a pé. Aquele ‘seja lá o que for’ era imenso, e tentar atravessá-lo era loucura. Mas, pensando bem, tudo aquilo era loucura, então ela não estava tão havia nada muito fora do normal.
Khaler já estava cansada, aliás, ela era humana. Humanos se cansam quando fazem grandes esforços durante um certo tempo. E o Ponto Laranja ainda estava muito distante, apesar de agora estar um pouco maior, indicando que estava mais próximo de sua posição atual. “Vou descansar um pouco depois de subir aquela duna”, pensou observando uma outra duna que estava logo a sua frente. Subiu lentamente a mini-montanha roxa e próximo ao topo deu uma pequena corrida para chegar mais rápido. Durante a corrida, presenciou algo estranho. Ao pisar no ‘solo’ um pouco mais forte, sentiu como se ele a jogasse de volta para cima, como um colchão de teia energética. Aquilo era fascinante. Será que o ‘solo’ tinha propriedades elásticas? Aparentemente as coisas estavam começando a ficar interessantes.
Após subir a duna, Khaler tentou provar da forma mais científica possível a propriedade elástica daquele ‘solo’. Armou todos os gatilhos mentais para interpretar os possíveis resultados, lembrou-se de todas as leis da física clássica que conhecia e deu um pulo. Newton estaria orgulhoso dela naquele momento. Seu corpo foi jogado de volta para cima quando encostou o ‘solo’. “EUREKA!”, pensou. “Poderia ganhar o prêmio Nobel por isso”, cogitou. Mas conseguiria levar aquela descoberta para o mundo ‘real’? Talvez os alienígenas que provavelmente estavam a observando não tinham a intenção de levá-la de volta para casa e, aparentemente não havia mais nenhum ser humano naquele lugar. Mais uma vez suas esperanças foram soterradas por toneladas de dunas de ‘material que parece vidro e é elástico’.
Depois de se divertir um pouco usando o ‘solo’ como cama elástica, Khaler teve outra grande ideia. “Por que ao invés de andar, eu não vou pulando até o Ponto Laranja? Assim eu não me cansaria tanto e me movimentaria muito mais rápido! Sou uma gênia”, pensou. De fato isso era verdade. Finalmente Khaler teve uma grande ideia que aparente era útil.
Então, saltitante como uma lebre selvagem, Khaler seguiu em direção ao Ponto Laranja, fazendo acrobacias no ar como uma atleta de ginástica olímpica. Aquilo era divertido. “Há quanto tempo não me divertia assim?”, questionou. Com o agito das grandes cidades e o advento da tecnologia, as pessoas não conseguiam se lembrar de como eram divertidas as atividades simples como pular corda. Humanóides, holografias e redes sociais faziam a ‘alegria’ dos seres humanos na atualidade. Para que sair de casa para se divertir no parque e conhecer alguém se você poderia ficar em casa, ter uma linda paisagem holográfica do parque, conversar com seu humanóide de companhia e compartilhar coisas interessantes (ou nem tanto) com seus amigos virtuais? Sem contar, é claro, com a insegurança das ruas da cidade, onde até mesmo a polícia corporativa poderia infringir a ‘lei’ e agredir ou fazer coisas piores com moradores da cidade baixa.
Khaler seguia em direção ao Ponto Laranja. Agora muito mais rápido e de modo mais divertido. Um bom tempo se passou, talvez minutos, talvez horas, talvez dias e Khaler finalmente se viu próxima ao Ponto Laranja, separada dele por apenas uma duna. Então ela parou o ritual saltitante e subiu a duna andando normalmente.
Chegando no topo, Khaler finalmente pôde ter uma vista privilegiada do Ponto Laranja. A visão era, no mínimo, inesperada. O Ponto Laranja realmente era um ponto… mas gigantesco… e no alto de uma espécie de arranha-céu. O Ponto Laranja ficava na verdade, no meio de uma espécie de cidade contemporânea, formada inteiramente de material roxo. Parecia uma colônia construída por alienígenas, mas algo naquele lugar soava familiar… Khaler desceu a duna e foi em direção à metrópole bizarra.
Tudo parecia exatamente como uma cidade. Arranha-céus, edifícios, carros e semáforos. Havia também vários manequins bizarros paralisados por todos os lados. Khaler andou um bom tempo pelas ruas e tudo parecia estático, paralisado no tempo. “Tem alguma coisa de familiar nesse lugar”, pensou, mas nenhuma lembrança lhe veio à cabeça.
Enquanto andava, percebeu um som quase inaudível que a perseguia para qualquer lugar que fosse dentro da cidade. Então parou, fechou os olhos e sentiu o som. Era um som bem simples que se repetia periodicamente. “Dó dó dó mi mi mi dó dó dó”, inferiu. Khaler conseguiu identificar as notas pois teve algumas aulas de piano clássico com sua ex-colega de quarto. Apesar de um piano desses ser exorbitantemente caro para qualquer morador da cidade baixa e ser grande demais para caber em um quarto minúsculo, existiam métodos um pouco menos ‘clássicos’ para simular um.
“De onde está vindo este som?”, pensou, depois de abrir seus olhos. Tentou achar a fonte do som sem sucesso. Ele parecia vir de todos os lados. Será que esse som estava, na verdade, em sua cabeça? Será que todo esse tempo nesse lugar bizarro estava começando a afetar seu cérebro? Quanto tempo já tinha se passado? Onde ele estava? Como tinha chegado ali? Uma duna de perguntas inundou novamente a cabeça de Khaler. Mas ela não poderia se deixar cair em paranoia novamente. Ainda era necessário encontrar um jeito de sair dali.
Olhou para um lado e para o outro e notou que a rua que estava à sua direita lhe parecia um pouco… familiar. Seguiu por essa rua e à medida que andava notou uma casa um tanto… familiar. Então a ficha finalmente caiu e Khaler percebeu que aquela era sua cidade natal! E aquela casa que estava observando era a casa onde foi criada antes de perder seus pais na Queda do Meteoro que destruiu sua cidade. “Não pode ser!”, pensou Khaler extremamente chocada. Sentou-se no chão desolada e lembrou-se de como fora aquele dia.