khaler

Abstractum pt. 3

Data: 11 de setembro de 13 anos atrás.

 

Neve.

Era a coisa que a pequena Khaler mais gostava. A segunda era a areia da praia. Areia essa que poderia sentir quando quisesse, devido ao fato de sua casa localizar-se em uma cidade de clima tropical que ficava a poucos quilômetros da praia.

Toda vez que vinha passar as férias na casa de sua tia era a mesma coisa. A pequena Khaler ficava maravilhada com o gelo e a neve que cobria a cidade. Devido às maravilhas tecnológicas conhecidas como ‘trens anelados’, as viagens internacionais se tornaram bastante rápidas e proporcionaram que mesmo crianças pudessem viajar o mundo todo com facilidade e segurança, como se estivessem indo para a escola. Por este motivo, a pequena Khaler viajava para a casa de sua tia durante as férias de verão.

A pequena Khaler estava fazendo um boneco de neve – uma de suas atividades preferidas – quando sua tia a chamou dizendo que os biscoitos estavam prontos. “Biscoitos!”, pensou, e então largou o monte de neve que formaria a cabeça do boneco e saiu em disparada para dentro da casa de sua tia e sentou-se na cadeira da mesa da cozinha.

Da cozinha era possível se ver a sala, onde o holovisor estava ligado mas de onde a pequena Khaler estava sentada não dava pra se ver o holovisor, somente a parede lateral da sala. Sua tia trouxe chocolate quente – um líquido bastante caro de se encontrar devido à crise do cacau, mas que ela fazia questão de comprar quando a pequena Khaler estava na casa – e deixou para que a pequena Khaler o tomasse enquanto ela buscava os biscoitos no forno. Existiam métodos mais práticos de se fazer biscoitos naquela época, mas as receitas caseiras ainda eram as mais gostosas.

A tia da pequena Khaler atravessou a cozinha e pegou os biscoitos no forno, voltando logo em seguida. Enquanto isso a pequena Khaler levantou o copo e tomou um gole do maravilhoso líquido quente quando ouviu um barulho de bandeja caindo no chão. A pequena Khaler largou o copo em cima da mesa e foi andando para ver o que tinha acontecido. Sua tia havia derrubado a bandeja no chão e estava paralisada olhando para o holovisor. A pequena Khaler olhou para o holovisor e viu muita fumaça e escombros. Parecia uma das imagens que vira em livros de história que falavam sobre  guerras. Mas a pequena Khaler não tinha idade suficiente para entender exatamente o que havia acontecido.

O que havia sido destruído era sua cidade. O que havia destruído, de acordo com o noticiário, fora uma bomba que havia no centro da cidade perto da Catedral Somacruz. Não houveram sobreviventes. Os pais da pequena Khaler estavam naquela cidade.

 

Depois do pequeno flashback, Khaler voltou para o mundo real e se perguntou o que estaria fazendo em sua cidade natal, ou, o que a sua cidade natal estaria fazendo naquele lugar bizarro. As coisas ficavam mais estranhas a cada momento.

Apesar querer entrar em sua casa para saber o que haveria lá dentro, Khaler preferiu para evitar lembranças tristes e seguiu para a grande torre no centro da cidade, que lembrou ser a Catedral da Igreja Somacruz.

Andou alguns quarteirões, virou algumas esquinas e finalmente chegou ao grande monumento vertical. Com certeza era bastante alto. Lembrou-se da estrutura de uma Catedral Somacruz e observou o arranha-céu que estava à sua frente.

Cada templo possuía, em seus arredores, vários ‘palcos’ onde eram realizados cultos ao ar livre. Esses cultos eram realizados por pastores Somacruz de patente mais baixa tentando subir de nível dentro da igreja. Dentro do prédio, grande parte dos níveis mais baixos era composta de templos de adoração frequentados por pessoas mais abastadas financeiramente. A parte média era composta pelos aposentos dos pastores Somacruz de patente mais alta, que pregavam para fiéis bastante abastados financeiramente. Na parte mais alta ficavam os aposentos dos padres Somacruz, que eram responsáveis por realizar exorcismos. Quanto mais alto estiver o aposento de um padre ou pastor, mais importante é o seu título Somacruz e maior a sua Ligação com Jesus, que reside no último andar de qualquer igreja.

Khaler atravessou o pátio e entrou pela porta do arranha-céu. Quase ficou cega quando adentrou, pois era extremamente branco, sem uma sombra sequer, dificultando bastante o trabalho de descobrir onde começavam e terminavam as paredes. Olhou para sua direita e percebeu um ponto vermelho em meio a imensidão de branco que a cercava. Seguiu até ele e notou que na verdade não era um ponto, e sim uma seta, que estava apontava para cima. Apertou o botão e percebeu que a sua esquerda uma porta havia se aberto, revelando um elevador, que, milagrosamente, não era branco. Assim que entrou, o elevador se fechou e ela sentiu a sensação de ser transportada para cima.

“Poderia ter uma uma música para passar o tempo”, pensou Khaler devido a demora para o elevador chegar ao seu destino. Um bom tempo depois o elevador abriu suas portas. Para sua incrível surpresa, o que Khaler viu foi uma incrível e gigantesca sala… branca.

Khaler adentrou a incrível e gigantesca sala e percebeu que ela possuía janelas que lhe davam uma visão ampla da cidade bizarra. Andou um pouco pela sala e também percebeu que havia uma escada que levava para um piso superior. Ela possuía degraus verdes, que só podiam ser vistos se alguém estivesse de frente para eles. Dos lados ela era completamente branca e sem sombras, que dificultava bastante a percepção da existência dela caso se olhasse de outro ângulo.

Khaler deu mais uma olhada pela sala, mas não havia nada de interessante a não ser as janelas e a escada verde. Khaler teve então uma “““““brilhante””””” ideia: “Vou me matar, assim eu vou poder sair daqui!”. Supondo-se que aquilo fosse um sonho, um grande impacto poderia acordá-la. Se tivesse sido raptada por alienígenas, provavelmente eles não iriam querer que algo acontecesse à sua querida cobaia. Obviamente essa era uma ótima ideia! Como ela não havia pensado nisso antes? Era genial! Khaler se sentiu aliviada, finalmente poderia voltar para casa graças à sua “““““brilhante””””” ideia. Então ela respirou fundo tomou impulso e correu em direção à janela roxa pensando “Adeus mundo cruel!”.

Quando Khaler estava quase se chocando com a janela, pensou rapidamente: “Espera aí. Roxa?”. Mas já era tarde. Devido à euforia por ter finalmente encontrado uma solução para sair daquele mundo bizarro, Khaler havia se esquecido das propriedades físicas do material roxo. Assim que se chocou com a janela, ela foi impulsionada novamente para trás em direção à lateral da escada, onde bateu a sua cabeça e deu um triplo mortal carpado de costas de cabeça para baixo estrelado ao horizonte linear antes de cair espatifada no chão como uma jaca. Ao cair fez um belo barulho de queda, que pode ser expresso pela onomatopeia ‘PLA!’. Um belo e seco ‘PLA!’.

Khaler ficou um tempo desacordada, por motivos óbvios. Mas pelo menos pode aprender algumas coisas:

  1. Qualquer coisa feita do material roxo tinha propriedades elásticas;
  2. O material branco não tinha as mesmas propriedades do material roxo;
  3. Existiam métodos de tortura naquele mundo;
  4. Sua ideia “““““brilhante””””” talvez não tenha sido tão “““““brilhante””””” assim;
  5. Ela já poderia começar a praticar ginástica olímpica clássica.

Depois de passar n+1 unidades de tempo, Khaler finalmente acordou. Estava tão disposta quanto uma pessoa que passou a semana toda se alimentando unicamente de bebidas alcoolicas. Sua cabeça estava zonza, possivelmente pelo fato de ela ter batido sua cabeça e depois ter emitido o belo e seco ‘PLA!’ ao cair no chão.

Enquanto levantava, pensou em nunca mais desafiar as leis da física ou da parafísica. Também pensou há quantas unidades de tempo estaria ali deitada. Também pensou se não tinha sofrido um traumatismo craniano, devido a força do impacto. E pensou várias e várias outras coisas que de certo modo lhe ajudaram a colocar a cabeça no lugar enquanto tentava se levantar.

Finalmente com a cabeça no lugar, Khaler se levantou e refletiu sobre o que tinha tentado fazer. “Que ideia estúpida”, pensou, desprezando totalmente a genialidade que a levou a executar a “““““brilhante””””” ideia que a havia levado àquela situação. Contando que o plano A não havia dado certo, Khaler tentou seguir o plano B, que apesar de tê-lo criado há pouco tempo, era bastante óbvio desde o início: subir a escada.

Khaler procurou a escada – que não era tão difícil de se encontrar dado que havia quase espatifado o seu crânio se chocando com ela – e a encontrou, com seus maravilhosos degraus verdes. Então subiu e se deparou com uma outra sala branca, com janelas quase transparentes por todos os lados. “Que surpresa”, pensou. Mas esta sala era diferente. Ela possuía uma figura geométrica laranja em seu centro, que poderia ser definida como um icosaedro, que, imaginou Khaler, seria o ponto laranja que teria visto ao longe.

Khaler se aproximou do icosaedro laranja. “Um belo icosaedro”, pensou. Todas suas faces eram perfeitas e emitiam uma luz laranja magnífica. Khaler rodeou o icosaedro umas 3 vezes maravilhada com a perfeição que a geometria estava lhe proporcionando. Notou que o icosaedro parecia oco e que havia alguma coisa ali dentro. Então se aproximou de uma das faces do icosaedro e notou que uma figura familiar estava dentro daquele objeto geométrico. Era um manequim, como os outros que preenchiam a cidade, mas este era diferente. Esta possuía asas, como as de um Ser Espectral Alado. Suas asas eram formadas por cristais azuis e eram magníficas. Ele não poderia ser um Ser Espectral, era magnífico demais para ser um deles.

Enquanto Khaler pensava sobre a classificação taxonômica do ser que havia acabado de encontrar, algo aconteceu. Ele se mexeu. Khaler se assustou e pulou para trás. Pouco depois ele parou. O que parecia ser a sua mão estava encostada em uma das faces do icosaedro. Sua posição ainda estava magnífica. Parecia que ele estava querendo algo. Talvez tocar em Khaler, o que seria um tanto… romântico. Khaler se aproximou novamente do icosaedro e observou o Magnífico Ser Espectral. Teve certeza que ele queria tocá-la. Então retribuiu o gesto ‘carinhoso’ do Ser e lentamente aproximou sua mão da face do icosaedro. Um momento um tanto… romântico. Khaler sentiu uma uma espécie de ‘energia boa’ fluindo por seu corpo. Mas isso durou pouco tempo. Logo depois sentiu como se uma corrente elétrica de alta intensidade atravessasse seu corpo. Não conseguia nem gritar de dor, a corrente havia paralisado todos os seus músculos, até que Khaler conseguiu se soltar da figura geométrica. Mas não foi porque quis, e sim porque algum tipo de força havia a jogado para fora em direção à janela transparente. Enquanto era expulsa para fora do templo, notou que o icosaedro estava se quebrando em vários pedaços. Atravessou a janela transparente, que se quebrou facilmente, do mesmo modo que um vidro sem tratamento kherlásico. Khaler despencou para o pátio da Catedral e se preocupou bastante ao ver que o piso não estava mais roxo, e sim cinza. Então chegou ao chão. O barulho não foi tão bonito quanto o da última queda.

Khaler permaneceu deitada no chão. Não conseguia pensar em muita coisa, mas quando olhou para o lado percebeu uma coisa que até agora não tinha visto naquele mundo. Um tipo de líquido vermelho. Supôs então que era sangue. O seu sangue. “Finalmente vou sair daqui”, pensou. Pela altura que havia caído, provavelmente não estaria pensando se estivesse em seu mundo. Olhou novamente para o céu. Ele estava diferente. Ainda estava roxo, mas possuía nuvens girando em espiral em cima do monumento vertical. E algo estava acontecendo. Uma onda de choque horizontal vinda da Catedral destruiu todos os prédios altos que existiam na cidade. Logo depois uma outra onda de choque começou a destruir a Catedral de cima para baixo. Era o fim. Enquanto observava a torre caindo lentamente sobre si mesma, pôde notar algo no alto dela. Era um tipo de luz. Uma luz azulada e bastante intensa. Não dava para saber o que era, já que Khaler não conseguia raciocinar direito. Então a torre veio totalmente abaixo. Khaler não pôde escapar.

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