O nada.
O vazio.
A escuridão.
Existem várias palavras para definir a mesma coisa. Isso era tudo que Khaler conseguia ver. Uma imensidão de nada.
Seus sentidos ainda estavam acordando e pouco a pouco começaram a se manifestar. O ar entrando por seus pulmões era bastante poluído, com todas aquelas impurezas de combustíveis que se misturavam à atmosfera da cidade. O som da dos veículos parecia uma melodia bizarra criada pelos seres humanos. Sua boca estava seca, então tratou rapidamente de umedecê-la passando a língua sobre seus lábios. Os músculos de seu corpo começaram a mandar mensagens para seu cérebro dizendo “Ei, estou aqui!”. Mas sua visão ainda não se manifestara, então decidiu finalmente abrir os olhos. Khaler lentamente abriu olhos e vislumbrou um tenebroso e poluído céu negro, e então fechou-os novamente.
“Uma bela noite”, pensou e deu um sorriso. “Há quanto tempo eu não acordo e me deparo com um tenebroso céu…”. Notando que havia algo estranho, Khaler tirou o sorriso do rosto e se levantou instantaneamente, como se tivesse descoberto que sua casa estava pegando fogo.
Finalmente de pé, Khaler se deparou com uma cena bizarra e impressionante. O céu realmente estava negro. Ela finalmente havia voltado para seu mundo, ou o que achava que era seu mundo. Olhou para os lados e percebeu que estava no pátio da Catedral Somacruz da cidade onde morava atualmente. “Aconteceu de novo”, pensou. Não era a primeira vez que Khaler acordava fora de sua casa. Pensou que talvez poderia sofrer de sonambulismo ou de Síndrome de Inception, que era relativamente comum na época. Talvez precisasse ir a um médico, ou à catedral Somacruz mais próxima, que curiosamente estava à sua frente. Mas Khaler não possuía condições financeiras para pagar por esses tratamentos. Aliás, nenhum morador da cidade baixa possuía condições para pagar qualquer tratamento médico.
Khaler pensou no ‘mico que havia pagado’ enquanto estava fora de si. “Será que alguém me viu?”, pensou envergonhada imaginando se alguém que conhecia teria a visto andando de pijama pela cidade. Decidiu então voltar para casa esperando que ninguém a visse naquela situação.
Enquanto andava começou a se perguntar se aquele ‘sonho’ possuía algum tipo de significado. Mas o que ele significaria? Será que a mídia mentiu sobre que realmente aconteceu com sua cidade? Será que a bomba foi simplesmente uma invenção da mídia apesar de todas as provas apresentadas? Quem era aquele Ser Espectral que estava preso no icosaedro? O que ele havia feito com ela? Uma chuva de perguntas inundou a cabeça de Khaler a ponto de ela não perceber que estava indo em direção a um padre Somacruz. Khaler bateu de frente com o padre, que provavelmente também estava distraído, derramando-lhe um líquido que pelo cheiro parecia café. Khaler estremeu de medo. O padre poderia entender aquilo como uma afronta à Igreja Somacruz e mandá-la para a prisão por desacato a uma autoridade religiosa.
Khaler ficou parada sem palavras enquanto o padre olhava o estrago que ela havia acabado de fazer. Então ele olhou para ela com um olhar de desaprovação e tudo o que Khaler conseguiu falar com um receoso “Desculpe-me Santíssimo Padre”.
O padre tentava minimizar o estrago que Khaler havia feito sacudindo sua camisa. Enquanto isso uma feiticeira Banshee de cabelo azulado que estava ao seu lado ria ininterruptamente. O padre olhou de volta para Khaler e disse:
— Não precisa dessas formalidades, só um “Desculpa” já basta.
Khaler ficou mais tranquila, provavelmente não seria presa.
— Tome um pouco mais de cuidado ao andar por aí. As pessoas andam bastante estressadas hoje em dia – disse o padre. Você precisa de… ajuda?
O padre estava olhando para o traje que Khaler estava vestindo. Talvez estivesse pensando que ela algum tipo de mendiga ou que havia escapado de algum hospital psiquiátrico. Khaler balançou a cabeça lentamente dizendo “Não…, obrigada…”.
— Tome cuidado, já está tarde para uma garota ficar andando por aí sozinha.
O padre passou a mão na cabeça de Khaler como quem acaricia um cachorro falando ‘Bom garoto!’ e seguiu em direção à Catedral. A feiticeira Banshee que o acompanhava sorriu e acenou para Khaler seguindo o mesmo caminho do padre logo em seguida. Os dois pareciam estar conversando durante o caminho, algo que Khaler achou bastante estranho. Geralmente as pessoas dessas religiões não se davam muito bem.
Khaler virou-se em direção à sua casa e pôs-se a caminhar. Nas ruas haviam pessoas de todos as raças, tribos e gêneros. Um homem de expressão jovialmente idosa passou por Khaler enquanto abria uma bala UltraLife. Algumas pessoas utilizavam máscaras enriquecidas de kherlásio para se proteger da poluição. Um casal formado aparentemente por dois padres Somacruz se amava intensamente em um beco. A vida havia voltado ao normal. Apesar de o dia ter sido louco.
Chegando em casa, Khaler percebeu que havia esquecido sua chave, apesar de a porta estar destrancada, algo altamente não recomendável na época. Acendeu as luzes e foi até o banheiro para lavar o rosto e tomar um banho antes de ir dormir. Terminado o banho, certificou-se de que a porta de entrada estava trancada e deitou-se na cama. Olhou o celular e notou que estava quase descarregado e que havia perdido todos os alarmes programados para a acordar. “Será que fiquei fora o dia inteiro?”, pensou Khaler confusa. Mas não tinha tempo para isso. Estava extremamente cansada e decidiu apagar todas as luzes para tentar dormir. Felizmente não precisaria acordar cedo no dia seguinte. Esperava apenas que o próximo dia chegasse e que pudesse acordar para presenciar mais uma bela manhã.